quarta-feira, 26 de outubro de 2011

AHK-toong BAY-bi Covered

Uma penca de discos de rock compostos por bandas relevantes completam 20 anos em 2011. Desde os ovacionados Nevermind e Screamadelia até a mal falada obra-prima do Guns 'n Roses, Use Your Illusion I e II (o Matias publicou, inclusive, uma lista de discos que festejam duas décadas de aniversário). Tem muita coisa beeeem legal, mas para mim, nenhum se compara em importância como o sétimo disco do U2, Achtung Baby.

Meu primeiro contato oficial com o quarteto de Dublin foi pela rádio, nas versões ao vivo de Sunday Bloody Sunday e New Year's Day, que se tornaram os primeiros hinos da banda (muito por culpa do antológico show que deu origem ao U2 Live at Red Rocks: Under a Blood Red Sky, gravado no Anfiteatro Red Rocks, no Colorado). Até aí, era um fã ocasional, que conhecia músicas que estavam em evidência de uma banda pouco importante para mim. Meu primeiro contato mais profundo rolou no apartamento de um ex-namorado da minha mãe, quando eu tinha 14 ou 15 anos. Ele tinha uma coleção de CDs meia-boca, desses que fazem parte do acervo da Antena 1, por exemplo. Num canto, atirado, estava um disco em uma caixa quebrada, sem encarte. A mídia tinha uns desenhos estranhos, algumas palavras (uma delas era algo como cool, mas com a duplicaçãod a letra "c") e o rosto de um bebê (babyface, malandro). Peguei aquilo sem muita esperança e coloquei para rodar no aparelho. Imaginava que nem iria tocar, de tão riscado que estava.

Foi quando ouvi os primeiros acordes do The Edge misturados com sons eletrônicos (que na época eu, mero rapaz do interior, não tinha a mínima ideia de que eram artificiais). Minto, eu ouvi acordes de guitarrra de um tocador que era uma incógnita até o momento. Em seguida outro maluco começa a cantar que está pronto para o gás do riso. Tudo aquilo era bizarro - como já dizia uma amiga minha "bizarro é bom" - e eu estava meio perdido. Pedi aquele disco emprestado ao meu padrasto que me deu com um alerta que nunca esqueci: "Esses caras são o U2. O som deles é muito pesado pra ti, acho que tu não vais gostar".

Levei para Caxias, onde morava na época, e coloquei no meu player. Foram meses e meses ouvindo aquele disco initerruptamente. E foi ali que eu comecei realmente a me interessar por rock. E durante anos The Edge, Bono, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton foram meus astros favoritos no mundo da música. Lembro, inclusive, que gravei a íntegra (sem comerciais, é claro), da apresentação que eles fizeram no Brasil em 1998 - com 15 anos -, depois de quebrar um pau com minha mãe por ela não me deixar ir até São Paulo assistir. Ainda guardo as revistas que comprei. E os discos ficarão para eu mostrar para o meu filho Joaquim, quando ele estiver crescidinho.

Muita coisa mudou de lá para cá. Conheci um monte de grupos diferentes, e hoje os irlandeses soam como aqueles amigos de infância que, com o passar do tempo, mudam tanto que não se identificam mais conosco. De qualquer forma, como os velhos parceiros, os U2 sempre serão lembrados com carinho e admiração (a ponto de eu ter gasto quase R$ 1.000 para, agora, com 28 anos, fazer a tal viagem à capital paulista). E foi com muita curiosidade que baixei o AHK-toong BAY-bi Covered, álbum tributo ao Achtung Baby, produzido pela Q Magazine, que reuniu fodas da música, como NIN, Patti Smith, Depeche Mode, The Killers, Jack White e uma galera. Sou uma pessoa relativamente aberta quando o assunto é música e, para mim, vale a escutada, pelo menos para sentir a temperatura. O caminho das pedras é aqui.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

We All Go Back To Where We Belong

Como despedida, o R.E.M. lança, em novembro, a coletânea "Part Lies, Part Heart, Part Truth, Part Garbage 1982-2011". Haverá três músicas inéditas. Uma delas é a que dá título ao post e pode ser escutada aqui. Mais uma das minhas bandas favoritas que se vai. Nem cedo, nem tarde. Em tempo! Foi trimasssssssssssssssssssssssssaaaaaa!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Entrando na polêmica do "blog" da Bethânia

Ontem, os holofotes se voltaram mais uma vez sobre Maria Bethânia. Infelizmente não foi o talento como intérprete que a colocou no foco da mídia. A autorização, por parte do Ministério da Cultura, da captação de R$1,3 milhão para o projeto "O Mundo Precisa de Poesia" trouxe a tona não só o nome da cantora mas, também, a forma como as leis de incentivo são executadas atualmente. Para quem estava em Júpiter nesta semana, a ideia é a publicação de um vídeo por dia, durante 365 dias, em um site no formato de blog, onde serão recitados, por Bethânia, textos em prosa e poesia de escritores de língua portuguesa.

A polêmica começou com a Mônica Bergamo, em seu blog na Folha de São Paulo. Chegada em uma história que rende boas fofocas, a jornalista minimizou o projeto de Bethânia, chamando-o, simplesmente de blog. Criou-se aí um frenesi a respeito do 'blog mais caro da história', que será 'patrocinado por dinheiro público'. Como meto a colher, me dou o direito de colocar minha humilde opinião nessa roda.

O projeto "blog"
Talvez o grande erro de toda esta história foi como o projeto foi divulgado. Ao denominar o trabalho a ser realizado de 'blog', houve uma minimização da real dimensão do que será realizado. A começar é um projeto de audiovisual. Como o nome já diz, audiovisual engloba sons e imagens. Para se realizar um trabalho descende neste ramo, são necessários equipamentos de qualidade, que não são baratos. Como é inviável criar uma produtora, mesmo com R$ 1,3 milhões de reais, é necessário a contratação de uma empresa do ramo. E, é claro, elas não são altruístas ou filantrópicas. Para exemplificar, o o custo de produção para a criação de um vídeo institucional de 5 minutos para a empresa onde trabalho (de médio porte) foi orçado em R$ 25.000,00.

Tirando-se isso, há custos operacionais (telefone, provedor, hospedagem, etc.) e da equipe de realização do projeto: roteirista, diretor, coordenador de produção, assessoria de comunicação. Não entrarei nem no mérito dos direitos autorais. Afinal os detentores destes direitos costumam solicitar remuneração para ceder o conteúdo.

A estética de Bethânia
Embora eu não seja fãzaço, sei da história, da importância e do potencial de Maria Bethânia. Não é a toa que ela é considerada uma das maiores intérpretes nacionais vivas. O fato de eu gostar ou não, é o meu gosto e diz respeito, adivinhem? À minha pessoa (tãdã). No mais, tenho até um apreço pela excelência que ela dá às suas interpretações. E se eu apenas um Zé Ninguém metendo o bedelho nessa história, deixo aqui uma palavrinha do Jorge Furtado, que tem um 'pequeno' know how quando o assunto é audiovisual.

De outra parte, é louvável a intenção dela de divulgar poesia pela internet. Se fosse eu - um quase fanho - ou algum gago qualquer, soaria ridículo. Agora alguém que tem história é outro papo. No mais, poesia deve ser repassada ao maior número de pessoas possíveis, visto que toda a arte é feita para o público. Essa história de que arte é uma manifestação destinada APENAS à satisfação pessoal é uma das maiores balelas que eu já tive a oportunidade de escutar - e escutei inúmeras vezes. Senão, livros não deveriam ser lidos, filmes engavetados antes de serem exibidos e músicas nem deveriam ser gravadas ou executadas. Se o artista propõe uma interpretação (seja ele autor ou simplesmente reprodutor), a assimilação é de quem recebe a mensagem. Isso é básico em qualquer área: interpretações são subjetivas e baseadas nas experiências pessoas e de contexto.

Uma lei a ser revisada
É fato que as leis de incentivo à cultura devem ser revistas e alteradas. Isso inclui, obviamente, a Lei Rouanet. O grande furo desas legislações, me parece, entra no momento da captação da verba. Milhares de projetos são aprovados pelo Ministério da Cultura todos os anos. Poucos, no entanto, conseguem arrecadar o que foi autorizado. Imaginem que o Fagner aqui decide criar um projeto audiovisual que custará em torno de R$ 1 milhão. O projeto é aprovado, como o da Bethânia. Só que o Fagner é o mosquito do cocô do cavalo do bandido e a Bethânia uma das artistas de maior visibilidade no Brasil. Os dois no páreo, é hora de bater perna e portas para conseguir grana na iniciativa privada. Qual dos dois projetos dará mais visibilidade aos financiadores? Quem vai preferir dar essa grana para mim em detrimento da cantora? Acho que as respostas são simples, não?

Por outro lado, existe o desconhecimento de muitos sobre a forma como a lei funciona. As empresas e, importante ressaltar, as pessoas físicas também, podem destinar parte do imposto de renda devido à projetos culturais, sociais ou esportivos. Isto quer dizer que, ao invés de o financiador pagar o fisco, ele destinará o dinheiro diretamente para o projeto de sua preferência. O mais interessante disto tudo é que as pessoas gostam tanto de falar que o imposto é dinheiro delas, afinal, foram elas que arcaram com os valores. Porque, então, os impostos pagos pelas empresas são considerados do governo? É interessante pensar se não há uma incoerência neste tipo de visão.

Aos que ainda têm dúvidas sobre o projeto, e quer comprovar na ponta do lápis se ele é superfaturado ou não (coisa que eu não fiz), ele está disponível aqui.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Parabéns, Kurt - ou - Como descobri que sou rebelde

Como a grande maioria dos não religiosos, fui crismado. Afinal, aos 14 anos, quase ninguém sabe muito bem o que quer da vida e acaba cedendo a algumas pressões familiares. O fato de ser untado a óleo não me traz prazer nem desgosto, mas me remete ao meu padrinho de crisma. Ele era namorado da minha mãe, na época. E, por mais que, até hoje, ela insista que eu não gostava dele, guardo muito carinho.

Lembro que, na falta de um pai, ele foi o primeiro cara para quem eu mostrei meu pau e perguntei se aquela 'pelezinha' envolta da 'cabeça' era normal. Também foi dele que ganhei minha primeira camisinha. Mas, enfim, isso é papo pra outro dia.

Outra coisa que recordo, foi que ele, durante anos, bancava minhas edições da revista Showbizz (que antes era só Bizz, depois terminou e agora tem o nome original, novamente). Foi lá que eu comecei a me interessar mais profundamente por música. Acho que tinha uns 11 ou 12 anos. Todo o santo mês ele me dava R$ 5 e eu ia até a banca de revistas saciar meus desejos.

Foi pela Showbizz e pela MTV - que surgia no Brasil -, que eu formei boa parte do meu gosto musical e, porque não dizer, da minha maneira de pensar e encarar o mundo. Tudo isso alicerçado pelo meu padrinho, claro.

Um dia, ele chegou pra mim e falou sobre um tal de Nirvana. Ele brincava, chamando de "Iguana". Disse que talvez seria um pouco pesado pra mim. Fiquei curioso, é claro. Lembro que era "Iguana" pra cá e pra lá. Eu precisava saber o que era esse tal de Nirvana.

Foi num Top 10, programa da MTV, apresentado pela Sabrina Parlattori, na época, que ouvi, pela primeira vez, Smells Like a Teen Spirit. Aquilo era, tipo, uma coisa absurda, pra mim. Um loirinho franzino com uma voz de nada, tocando o terror junto de um monstro russo e um cabeludo. Na época eu começava a escutar U2, Led Zeppelin e Queen. E, mesmo não conseguindo superar Bono e turminha, o loirinho estava em outro patamar. Ele tinha uma coisa estranha. Uma forma de encarar as câmeras que, na época, eu sentia mas não sabia explicar.

Um dia ganhei R$ 10. Meu padrinho disse que poderia ficar com o troco. Comprei minha edição da revista e um CD pirata: From the Muddy Banks of the Wishkah. Aquele som era bizarro. Eu ainda não conhecia punk rock, além dos Ramones e, não percebi o que era no momento.

Hoje percebo a raiva da vida, transmitida em forma de deboche, que Kurt Cobain tinha. Um certo nojo de tudo aquilo que ele via, ouvia e sentia. Tudo aquilo transformado em música e rebeldia. Em acordes distorcidos, letras agressivas e muitos berros e afrontas.

Essa postura não salva alguém tão perdido quanto ele. Depois, quando escutei Nevermind, Bleach e In Utero (sim, nesta ordem), me dei conta de que eu sentia por ele aquele sentimento que eu sempre digo que é impossível renegar. A IDENTIFICAÇÃO. Eu estava ali, nos lamentos, nas distorções. Nos excessos e naquela sensação de estar preso a algo que não é nosso.

Era um adolescente na época e, como já disse, não percebi isso conscientemente. Mas hoje eu sei. Kurt me ensinou, mais que qualquer outro maluco e ídolo, que algumas pessoas nascem para extrapolar e que tentar fugir disso é tão eficaz quanto tentar derrubar um prédio com atirando bolinhas de massa de modelar.

Hoje ele completaria 44 anos. Mas nos deixou cedo demais. Esse era o destino dele. Além de 'ensinar' a multidões que existem coisas das quais não podemos fugir. Para o bem e para o mal, Kurt Cobain, foi um dos caras que contribuíram para a formação do que eu sou hoje. Me ensinou, principalmente, que mesmo vivendo no limite, é preciso ter cuidado, para poder atingir uma plenitude que ele, infelizmente, não conseguiu.

Spank Thru - live @ Tijuana, Mexico

Polly (From the Muddy Banks of the Wishkah)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Apenas o Fim

Antônio (Gregório Duvivier) e Adriana (Erika Mader) são Ele e Ela. Na verdade, são “Amor”. Mas vai ser difícil identificar quem é um e quem é o outro com um substantivo sem variação de gênero. Então usarei as demais denominações. Os dois, ao que tudo indica, se amam e tem uma relação relativamente normal, até que Ela decide fugir e abandoná-lo. Essa é a premissa básica de Apenas o Fim, filme idealizado e produzido por estudantes da PUC-RJ, em 2008, com direção e roteiro de Matheus Souza.

Ler estas primeiras linhas leva qualquer um a pensar “puta que o pariu, que porra de mesmice”. Eu mesmo, quando recebi a indicação de uma amiga, tive essa impressão. Mas Apenas o Fim é uma pequena e simples obra-prima, feita especialmente para aqueles que nasceram nas décadas de 1980 e 1990. Quando Adriana chega e descarrega a declaração bombástica – eles tem uma hora para se despedir –, se inicia uma viagem pela cultura pop dos últimos 30 anos que, talvez, nenhum filme tenha explorado tanto. Veja bem. Não estou afirmando que seja melhor que outros. A produção é simples e descompromissada e a atuação do casal não é exatamente primorosa. Mas a forma como a história é conduzida é de fazer com que o jovem adulto com a infância mais traumática sinta nostalgia e relembre como podem ter sido bons aqueles tempos.

Antônio é um nerd típico: óculos de armação grossa (herdado do avô, no caso), camisa polo ou camisetas relacionadas a filmes e músicas (como sua tão mal falada camiseta do Star Wars), calça jeans e All Stars verdes. Adriana é uma neo-hippie, com óculos escuros estilosos, vestidinhos floridos, cabelos compridos e ondulados, rosto perfeitinho e All Stars vermelhos. Ah, na obra, eles são estudantes de cinema. Enfim, o casal é o hype do hype do hype do século XXI. E é por aí que toda a trama faz sentido.

Durante o tempo em que se despedem e, também, nos flashbacks, eles travam discussões triviais sobre, por exemplo, qual a boyband favorita de Antônio ou, declarações como o fato de Ele gostar do jeito que ela toca flauta com o nariz. Para Ele, Ela é o Dick Vigarista da Corrida Maluca. Já Ela odeia a infantilidade dele, por conta de um boneco do He-Man. Que, Antônio explica, é o Fanático, não o He-Man. Existe, claro, todo o romantismo brega-chique, que só aqueles aqueles que hoje possuem entre 20 e 30 anos entendem (embora se envergonhem). Comparações sobre o amor ser relacionado à pizza ou McDonalds estão no centro de bate-papos primorosos de Apenas o Fim. Ou a discussão sobre o quão clichê é falar de amor:

Ele: Você ainda me ama?

Ela: Ai, falar de amor é muito clichê.

Ele: Eu não acho. Acho que falar sobre falar que amor é clichê que é muito clichê.

Para ser sincero, qualquer ícone pop dos últimos anos está presente: Pokémon? Bingo. Cavaleiros do Zodíaco? O Shiryu é o favorito de Antônio. Tiração de sarro com o Niemeyer? Os morros do Rio foram o projeto de formatura dele, em 1522. Michael Jackson? Não preciso dizer. Ursinhos Carinhosos? Óbvio. Pense em qualquer coisa. Se não houver nenhum comentário a respeito do tema na história, comece a se questionar se você realmente viveu no planeta Terra a partir de 1980. Imagine a mesma coisa, caso você não conheça algum dos assuntos debatidos enfáticamente entre Antônio e Adriana.

Apesar de toda minha empolgação, Apenas o Fim é um filme para ser visto sem grandes pretensões, para ser curtido relembrando um passado que, como qualquer outro, não volta mais. E é justamente esta a moral. Acho até que uma das afirmações que Ele faz sobre Ela resume a película: “você é uma farsa, sabia? Uma bem bonitinha, mas uma farsa”.

Enfim, Matheus Souza e equipe criaram uma fraudezinha que encantará toda uma geração por uma qualidade que é impossível se desvencilhar: a identificação. Então assista e identifique-se. É só o que há para dizer.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O samba é rock (e vice-versa)

*Minha homenagem ao Dia do Samba

Como tudo que é relevante, surgiu por acaso, no improviso, na imaginação. Era 2007, acho. Tinha 24 anos e uma fixação: me especializar em algo. Achava muitos assuntos interessantes, desde física quântica até a importância da geladeira para os esquimós. Mas nada me era tão fascinante quanto o rock.

Mais que um estilo musical aquilo era, para mim, uma filosofia de vida. A representação da luta social sem armas. Ou melhor, com OUTRAS armas. "Essa máquina mata fascistas", cravara Woody Guthrie - um dos principais ícones da música de protesto do século passado e grande influência para o rock 'n roll - no case de seu violão.

De outro lado, esta forma de ver o mundo - e a vida, por consequência -, ganhou contornos populares. Era a bela dualidade: contestação e popularidade. O resto todo mundo já sabe. Os movimentos sociais, a revolução sexual, Serguei comendo a Janis, Hendrix queimando sua guitarra e tocando o horror, os Beatles exorcizando seus fãs com doses cavalares de psicodelia, a essência blueseira dos anos 1950 e o mundo que seguiu adiante e se tornou o que é hoje. Não importa!

Mas, no fim, tudo é lindo e incoerente, como uma declaração de Caetano. Foi exatamente neste momento que a pulga se escondeu atrás da minha orelha. Pensei: onde, pelos infernos, estava o Brasil, enquanto o resto do mundo explodia em hormônios e exaltações rebeldes? Aquilo era sem sentido. Minha epifânia vinha de algo que ocorrera há dezenas de milhares de quilômetros de casa. Totalmente deslocado do meu cotidiano. "Mentiroso", "Judas", exclamariam alguns, acreditando que me rebelei contra o que sempre acreditei. Muito pelo contrário. Tentava descobrir como meu país, meu povo, havia contribuído com isso tudo. Até que um dia cheguei no samba.

Nossa matriz musical foi, para o Brasil, tudo o que o rock foi para Estados Unidos e Reino Unido. Quiçá, até mais! O batuque, tomado emprestado dos escravos, se modernizou na década de 1930. Foi a representação máxima do modo de vida da capital brasileira naquela época – o Rio de Janeiro –, retratando não só o cotidiano das classes, como seus embates e os problemas estruturais em uma sociedade que engatinhava para se organizar. Mais do que isso, o samba transmitia a essência dos desfavores e dos protestos sociais no Brasil. Se Chico Buarque, Os Mutantes, Gal Costa, Maria Bethânia, Toquinho, Vinícius de Moraes e tantos outros nomes da chamada MPB têm relevância, hoje, como vozes que reclamavam as ilegalidades e injustiças da ditadura, muito se deve aos sambistas. Tanto os bambas das periferias e dos morros quanto os músicos de classes mais favorecidas, que abraçaram a causa: mostrar a vida, as angústias, as alegrias, as esperanças e as injustiças do povo.

Não encare este escrito como uma tentativa de comparar dois estilos musicais. Talvez queira, aqui, apenas apresentar o 'achismo' de quem vê a cultura brasileira como algo a ser preservado a admirado. Ok, admito, comparo, sim. Dois estilos de vida. Diferentes em vários planos, mas muito parecidos, na essência. Para mim, samba é rock. E vice-versa!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Maria do Rosário, uma eterna injustiçada

A vida é marcada por penúrias e humilhações para algumas pessoas. Mas nenhuma recebeu tanta injustiça injusta e foi tão injustamente injutiçada sem justiça quanto a nossa querida deputada federal petista Maria do Rosário, também conhecida como Maria do Bairro dos Pampas.
Entre os percalços enfrentados, Rosarinho foi derrotada há dois anos, na campanha à prefeitura de Porto Alegre, pelo candidato machista José Fogaça - após, é claro, provar que como boa representante da esquerda, merece um salário justo. Na ocasião, ela chorou feito uma criancinha mimada e reclamou que não teve apoio dos amiguxos e que os meninos são malvados com as meninas agradeceu o auxílio da militância, ressaltando que a campanha não conseguiu espaço suficiente para ganhar forma no segundo turno.
Como o senhor tempo não perdoa, o sofrimento de outrora volta agora, quando, por causa de um pequeno probleminha na prestação de contas da campanha de 2008, ela teve a candidatura impugnada (três vezes) pelo TRE. Com mais de 143 mil votos não oficializados até agora, Rosário anda de mimimizinho por aí, chorando histericamente e gritando "mas o que é isso, mas o que é isso" aguarda uma decisão favorável no TSE para que a justiça seja feita.
Espero que, em breve, seja lançada a biografia "Maria do Rosário - A filha bastarda do RS". Enquanto isso, deixo aqui, as palavras do paladino dos humilhados e desfavorecidos, o também congressista Flávio Bolsonaro.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A grande falácia política da Lei da Ação e Reação

Existe uma regra da física que se chama 'Lei da Ação e Reação'. Resumindo, ela afirma que toda ação causa uma reação de mesma força mas na direção contrária. Na prática é como se jogássemos, com toda a força, uma bolinha de borracha na parede e ela voltasse na nossa cara causando um hematoma. Em um sentido mais humano e positivo, poderíamos dizer que quanto mais gentileza demonstrarmos para com os outros, mais receberemos em troca.

Isto, é claro, num mundo ideal. E aí está o problema. A realidade não é assim (essa tal realidade. Sempre atrapalhando tudo). De qualquer forma, podemos ver as coisas pelo lado bom. Se alguém arremessar a tal bolinha de borracha na parede, muito provavelmente ela não acertará o atirador de volta. Ufa. Não comentarei sobre a questão dos sentimentos porque eles normalmente MACHUC zzzzzzzzzzzzzzzzz... ops.

Mas existe uma forma bem interessante de perceber como, na prática, a 'Lei da Ação e Reação' não funciona. A expressão-chave do momento é 'eleição parlamentar'. No Brasil existe algo chamado Congresso Nacional, você sabe, não é? É lá que se reúnem aqueles não sei quantos 'picaretas com anel de doutor' (Herbert Viana, te amo). São 513 deputados e 91 senadores, para ser mais exato. E é justamente entre esses cerca de 600 representantes do povo que se enxerga direitinho a falha dessa tal ação e reação.



Vamos supor que você, jovem engajado, que está entre os 2% dos usuários de internet que pesquisam sobre política na rede, tenha uma epifânia e descobriu que TODOS OS POLÍTICOS SÃO LADRÕES. Isso, é claro, te transforma num mentiroso ou mostra que ainda anseias por conhecer a Terra do Nunca e viver feliz para sempre ao lado da Sininho. Mas, também, te coloca na posição de sentar em uma mesa de bar, discursar sobre a situação política do Brasil e mostrar para todo mundo como tu és superior aos cerca de 70% de analfabetos funcionais brasileiros. Isso, é claro, partindo-se do ponto de que ninguém perceba que afirmar que 'político nenhum presta' é uma grande mentira. Eles existem. Acho que ainda não conheci nenhum, mas, para mim, é como um cristão acreditar em Jesus. É assim e ponto (ponto)

Mas ok. Suponhamos que nenhum dos companheiros de bebedeira perceba essa pequena mentirinha de nada. A discussão poderia ir para outros rumos: votar nulo como forma de protesto. Ou votar em um palhaço qualquer que decidiu se candidatar a uma vaga no Congresso. Como forma de protesto, também, é óbvio. Jogadores de futebol, apresentadores de rádio e tv, strippers atrizes e diretoras de espetáculos públicos, cantores, não me levem a mal, nem se ofendam. Falarei sobre um palhaço de verdade.

Francisco Everardo Oliveira Silva. Descobriu? O Tiririca, rapaz. O palhaço que tanto me alegrou na juventude e me fez cantarolar 'Clementina, Clementina/ Clementina de Jesus/ não sei se tu me ama/ pra que tu me seduz' na saída das aulas, decidiu mostrar que pode contribuir para o transformar o país em um lugar melhor pra se viver. Ele sabe ler e escrever - o que garante possibilidade de se candidatar - e não sabe muito bem o que um deputado faz - mas tem certeza que, com a equipe de assessores que possui, aprenderá e será um bom representante. Dito e feito. Nosso alegre palhaço está na corrida por uma vaga a deputado federal pelo PR de São Paulo.

Sinceramente, eu acho bonito. O Brasil deu um passo fundamental na democracia ao eleger um presidente do povo, de origem humilde e todo esse blablabla whiskas sachê que todo mundo já sabe. Nesta eleição, se eu fosse paulista, e soubesse que NENHUM político presta, deveria votar no Tiririca, não? Afinal, ele não é político (ainda, pelo menos). Bom, se você respondeu que eu NÃO DEVERIA votar nele, ganhou uma bola de futebol (ou uma Barbie comunista, se preferir).

Mas agora vem a pergunta que vale R$1 milhão. Por que diabos eu não deveria votar nele? Vou dar uma dica: pelo mesmo motivo que eu não votaria em jogadores de futebol, apresentadores de rádio e tv, atrizes e diretoras de espetáculos públicos, cantores e etc e tals. Se você responder que é porque eles seriam manipulados pelo sistema e, no fim das contas não serviriam para nada, você acertou uma partezinha inha inha da resposta. O que quer dizer que você errou. E perdeu a Barbie, também. Bom pra mim, não?

Enfim, vamos à resposta. Existe uma diferença entre as eleições para os cargos do Executivo e do Legislativo. Enquanto no primeiro a forma de escolha é majoritária, no outro é proporcional. Isto quer dizer que, ao votar, além de escolher o seu candidato, você também estará apoiando a legenda dele e, por tabela, todos os colegas que fazem parte do mesmo partido. E quanto mais votos uma legenda recebe, maior o número de legisladores ela tem o direito de eleger. Se eu, você e mais 1 milhão de eleitores votarmos no Tiririca (ou qualquer outro candidato das classes citadas acima) para mostrar que a política é uma palhaçada, mesmo, o partido a que eles pertencem aumentará muito o número de Deputados que poderá eleger.

Isso quer dizer que, mesmo com menos votos, essa catrefa de políticos que não presta poderá conseguir um lugarzinho na plenária da Câmara dos Deputados, na carona das celebridades. É o que se chama de efeito proporcional.

Então, antes de escolher qualquer um pela palhaçada, reflita um pouco. Mentira, reflita MUITO. Pese o seu poder nas urnas. Ele é grande. Por isso, analise os candidatos, pesquise o passado deles, as propostas, as coligações, o quanto eles realmente podem contribuir para o nosso país. Talvez você ache alguém que valha a pena acreditar e confiar. Não faça com que a bolinha de borracha acerte em cheio no teu olho. E, principalmente, não faça a si próprio de palhaço!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Notícias de uma guerra particular

Em tempos de ócio infinito tenho oportunidade de atualizar um pouco meu lado cinéfilo. Dediquei uma hora da minha madrugada de ontem ao documentário, produzido pel Katia Lund e pelo João Moreira Salles e lançado em 1999, "Notícias de uma guerra particular". Mais que um depoimento sobre a atuação do crime organizado nos morros do Rio, o filme é o retrato de uma sociedade que perdeu o controle dentro dos embates entre policiais e criminosos e, principalmente, que já não consegue reconhecer quem é mocinho e bandido nessa história.

Um capitão do BOPE, o chefe da polícia civil do RJ - o respeitadíssimo Hélio Luz que, infelizmente, jogou a toalha no combate à criminalidade -, traficantes e moradores de favelas cariocas posicionam o expectador no contexto em que milhões de pessoas vivem tanto com medo da polícia quanto dos bandidos, além de pincelar o papel do Estado como alicerce para o desenvolvimento da corrupção e da criminalidade.

O enredo é esclarecedor não só por conta da participação de especialistas em segurança pública - que dão a cara a tapa ao fazerem afirmações como "o tráfico é um bom negócio pra quem está na favela. Só não entende isso quem nunca nunca ficou desempregado, nunca passou fome". Notícias é uma aula dada pelos próprios traficantes e pela comunidade local, que, embora tenha consciência que o crime organizado não substitui o Estado, vê nos traficantes uma forma de proteção, já que, com medo de subir um morro, os policiais "não chegam na nossa casa chutando porta e batendo em todo mundo".

Enfim, vale a pena conferir, principalmente porque o documentário é extremamente acessível e pode ser encontrado no Youtube. Pegae, então!

Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5


Parte 6


Parte 7

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Mais uma etapa superada!

Obrigado a todos que torceram por mim. ;)